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São Luís redescobre o turismo por meio da sua negritude

Tambor de Crioula é uma das atrações frequentes do Centro Histórico, e a Fonte do Ribeirão é local de visitação em São Luís. Fotos: Heitor Salatiel

São Luís é a segunda capital do Brasil com o maior percentual de pessoas negras: 71%, ficando atrás apenas de Salvador (com cerca de 80% da população). A negritude evidente da capital maranhense não era tão explorada pelo turismo que insistia em mostrar uma narrativa embranquecida da cidade. Com o crescimento do interesse pelo afroturismo, a cidade passou a atrair os viajantes com a valorização de histórias e lugares de cultura negra.

Atualmente, São Luís está no topo dos interesses dos afroviajantes que querem viajar nos próximos meses. A cidade aparece na liderança como destino dos sonhos pessoas negras que querem viajar, ao lado de Recife (com 20%), segundo pesquisa encomendada pela consultoria em diversidade AFAR Ventures. Se, no começo do século passado, São Luís tentou se vender como a “Atenas brasileira”, por ser berço de poetas, a capital do Maranhão firma-se agora como a “Jamaica brasileira”, por escutar reggae e oferecer lugares como o Bar do Nelson e o Novo Quilombo, onde as pessoas ouvem o ritmo de Bob Marley dançando agarradinhas.

A cidade também é palco do tambor de crioula, dança alegre de origem africana, e do tambor de mina, religião de matriz africana em que são cultuados voduns e caboclos. Há ainda, as festas de bumba meu boi que têm seu auge no mês de junho, quando há as comemorações de festa junina, num São João bastante único, com presença de ancestralidade africana. Na culinária, o destaque é para o arroz de cuxá, feito com a folha da vinagreira, que tem um gosto marcante e está presente em muitos pratos da região.

Centro histórico – O centro histórico de São Luís é local de visita obrigatória, com narrativas como a de Catarina Mina, mulher que foi escravizada e que, quando liberta, comprou vários imóveis na região, tendo hoje um beco e um centro cultural que levam seu nome; de Maria Aragão, médica comunista que na década de 1960, lutou pelas causas sociais e contra a ditadura militar e é homenageada com uma praça e um memorial; e Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira que viveu no século 19 e escrevia sobre os males da escravização, a escritora atualmente tem bustos em sua homenagem.

As três mulheres negras fazem parte das histórias contadas pelo Instituto Da Cor ao Caso, que, em novembro de 2021, lançou um roteiro turístico chamado “Caminho Ancestral”. O passeio conta as histórias negras da cidade, além de um roteiro exclusivo sobre Maria Firmina dos Reis. “É fundamental falar sobre nossa ancestralidade que resiste e permanece presente no cotidiano e na construção cultural, social e política de São Luís, que é uma cidade negra. Nosso roteiro apresenta personalidades afrodescendentes que foram relevantes no contexto literário, intelectual, arquitetônico, musical e cultural da capital do Maranhão, mas que infelizmente foram invisibilizadas pelo racismo estrutural”, afirma Anita Machado, diretora do instituto.

Outro personagem que volta a ter sua história vista pelo turismo é Tibira, indígena que foi executado, em 1614, com a anuência de religiosos da Igreja Católica por conta de sua orientação sexual. Tibira ganhou um monumento ainda pouco lembrado pelos guias locais, mas que começa a ganhar mais visibilidade com o surgimento de novos roteiros. Entre os museus, destaques para o Cafuá das Mercês, o Museu do Negro, que conta histórias de personagens negros locais, além de uma réplica do Pelourinho da cidade, o Museu do Reggae e o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho (Casa da Festa).

Já a Fonte do Ribeirão é daqueles lugares de energia forte e com passado de dor e esperança para o povo preto, que continua tendo sua juventude reunida no entorno. Há ainda novos empreendimentos chefiados por pessoas negras como a Cozinha Ancestral, da cozinheira Leila Oliveira, onde se pode experimentar refeições preparadas em fogão a lenha no quintal de uma casa aconchegante. O Tebas Café, que recebe eventos e faz parte de um coworking, com um negócio social de escritório de arquitetura. Na Rua Grande, próxima ao Mercado Central, concentram-se as lojas de artigos religiosos, por isso, também é conhecida como “Rua da Macumba”.

Liberdade – A prefeitura de São Luís incluiu o debate sobre o afroturismo no I Seminário Municipal de Turismo, realizado em novembro de 2021, e está preparando organizações do bairro Liberdade, considerado o maior quilombo urbano das Américas, para que recebam turistas. “As heranças africanas são visíveis na tradição, na cultura, na identidade, na história e na gastronomia que fazem parte de São Luís. Entendemos a importância do afroturismo para o desenvolvimento do território da Liberdade e, também, como novo produto turístico para a cidade”, considera o secretário de Turismo de São Luís, Saulo Santos.

A Liberdade tem hoje, pelo menos, 25 pontos de interesse turísticos. A maior parte deles fica no entorno da Rua Thomé de Souza, que abriga diversos terreiros e sedes de “bois”, como o da Floresta e o Boi de Leonardo. O complexo tem atraído atenção de visitantes que querem passeios para além das praias. Por lá, há também terreiros como o Yle Ashe Ogum Logbo e o Yle Ashe Oba Yzoo.

Na cidade vizinha, Alcântara, é possível ver o tambor de crioula, o tambor de mina e algumas comunidades quilombolas. Em outra ponta da ilha que abriga São Luís, comunidades de pescadores como a de Raposa, oferecem navegação com consumo da comida vinda do mar. Há ainda paisagens conhecidas como “fronhas” que são lagoas formadas em dunas de areia, semelhantes, porém menores, do que os Lençóis.

Tantos atrativos mostram que São Luís é mais do que um local de passagem, com um centro histórico pulsante, vida cultural efervescente e história e cultura negras únicas como as do Bairro da Liberdade. Vale bastante uma visita à ilha dos encantos com um olhar afrocentrado! (Guilherme Soares Dias – UOL)

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