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Quem Vence o BBB? A Cibercultura!

Foto: Reprodução

Há mais de um ano em casa, perambulando da sala para o quarto e convivendo com um grupo mínimo de pessoas, já que por ser grupo de risco a pandemia para mim é ainda mais assustadora, me vi completamente envolvida pelo Big Brother Brasil.

Nunca fui chegada ao programa que já está em sua 21ª edição. Talvez porque antes, com uma rotina fora de casa exaustiva, o que eu mais queria era ficar com os meus, ler alguma coisa, me jogar na cama e dormir. Com o “novo normal” a vida mudou. Continuo trabalhando muito, mas tempo e espaço assumiram nova dimensão e, de tanto acompanhar pelas redes comentários sobre os Brothers, resolvi espiar. Em pouco tempo já estava completamente fisgada.O BBB estava fora das minhas opções de entretenimento não por ser um reality. Eu gosto muito de alguns deles, especialmente os de culinária e música. O que sempre me incomodou nesse formato foi a ausência de um sentido. Não há um talento em disputa. Não estamos buscando o melhor cozinheiro ou a voz mais encantadora. Esse vazio semântico me afastava. Eis que, superando o estranhamento inicial, passei a acompanhar a vida de pessoas comuns e subcelebridades (esse termo é o máximo!) que juntas, vivem o desafio da convivência. O que está em jogo, em última instância, é a capacidade de ser aceito, exercitar o poder e viver personas dentro e fora da casa, tal qual na vida real. O que Foucault, Freud e Jung pensariam da brincadeira?

Além de observar atentamente a dinâmica das relações na casa, encarando-a como um tubo de ensaio das relações sociais, me vi assustada com o poder de tudo isso sobre as pessoas (inclusive sobre mim), o que me levou a revisitar algumas leituras sobre a cibercultura e a dinâmica da comunicação, refletindo sobre um mundo onde cada vez mais mídia convencional e redes sociais se interconectam. Convergência, redes e compartilhamento funcionam como uma alavanca capaz de mover esse frágil planeta e tudo que nele vive e o BBB é uma aula profunda sobre o tema: distância entre o que somos de fato e como nos apresentamos socialmente, reações humanas frente a situações extremas, como o confinamento e a impossibilidade de feedback dos outros, e o diálogo de surdos estabelecido entre os participantes e o público aqui fora, são alguns dos curiosos aspectos desse que está entre os programas de maior audiência do país.

Pierry Levy ensina que a cibercultura, enquanto movimento social, está assentada sobre interconexão, comunidades virtuais e inteligência coletiva. No centro desse tripé – dando liga e viabilidade – a internet veio quebrar a lógica linear emissor-receptor, inaugurando a dimensão multidirecional da comunicação, onde todos têm voz e transitam dinamicamente entre produção, emissão e consumo de conteúdo.

A partir do seu smatphone, cada cidadão ganha um microfone e assume lugar na vitrine das redes, passando a influenciar e sendo influenciado na velocidade da luz. Está estabelecida a possibilidade de cocriação de sentidos e, também, está posto o risco de perda das fundamentais capacidades de escutar e calar. Muitas vezes somos induzidos a achar que temos que ter uma opinião sobre absolutamente todos os temas, submetendo nossos pares a um bombardeio de ideias nem sempre edificantes. O BBB faz esses conceitos saltarem dos livros para a tela, dando corpo e consistência a teorias que parecem distantes. Internet das coisas, canais no Youtube, grupos de WhatsappTelegram, Slack e tantos outros penduricalhos eletrônicos que passaram a coexistir conosco, sintetizam o que Levy denominou ciberespaço, locus da cibercultura, onde vivemos uma telepresença generalizada.

A capacidade de influência das redes sobre a grande mídia é tamanha que o resultado do reality já é praticamente conhecido. Quanto maior o número de seguidores, mais votos para eliminar/manter participantes. Essa determinante torna sem graça a competição e desloca o eixo do jogo de dentro para fora da casa. A essa altura do campeonato já não importa tanto o comportamento comunitário e as habilidades de comunicação e sim o trabalho das torcidas.  Os números e a velocidade de crescimento de fãs nas redes dos Brothers é algo que beira o inacreditável. O Instagram da favorita Juliette, uma advogada e maquiadora, anônima até entrar no programa, saltou de 3.822 seguidores para 21,6 milhões em pouco mais de 80 dias. O fenômeno se repete com praticamente todos os Brothers (ver box). Interessante notar que o grupo intitulado camarote, que já era famoso na internet antes do programa, apresenta uma tendência menor de crescimento, é o caso da funkeira Pocah e da youtuber Viih Tube que cresceram 14% e 21%, respectivamente. Do outro lado, já nas primeiras 24h após o anuncio do nome como BBB, o produtor rural Caio Afiune alcançou mais de 72 mil novos seguidores, com crescimento na ordem de 8.066%. Comparando o número de seguidores de Juliette antes do programa e hoje, tem-se crescimento de 565.000%.

Com imenso know how na área, a Rede Globo e seus patrocinadores, de olho nas centenas de milhões envolvidas no reality, cria e alimenta redes sociais do programa, gerando conteúdos reproduzidos nas páginas dos participantes. Talvez a grande virada acerca do poder das redes sobre o programa tenha vindo da ex-BBB Manu Gavassi, que de forma muito profissional deixou vasto conteúdo produzido para alimentar as suas, dando uma aula. A edição atual ratificou a importância dessa iniciativa!

Mas nem tudo são flores. No lado oposto da fama repentina está o chamado “cancelamento”, experiência vivenciada por parte do elenco camarote, como é o caso do Projota, Negro Di e da cantora Karol Conka, que viram suas carreiras encolherem rapidamente, amargando danos irreversíveis. Segundo a agência Brunch, somente a Karol perdeu mais de 300 mil seguidores no Instagram o que resultou em um prejuízo financeiro de cerca de R$ 5 milhões, advindo do cancelamento de shows, patrocínios e do seu programa na GNT. Interessante notar que o argumento das pessoas para cancelar a Karol foi sua excessiva agressividade e, paradoxalmente, uma onda assustadora de violentas vozes levantou-se contra ela. Até ameaça de morte alguns dos “cancelados” sofreram. É o linchamento virtual reproduzindo o real, onde alguém se acha no direito de agredir e matar em reação ao ato de um assassino, por exemplo. Violência, gerando mais violência.

Como todos os demais aspectos da vida o ciberespaço nos coloca frente a possibilidades incríveis, como reunir pessoas dispersas pelo mundo para desenvolver e aperfeiçoar softwares de código aberto, em uma bela demonstração de inteligência coletiva, ao mesmo tempo em que se torna ambiente propício à disseminação de fake news, crimes virtuais e julgamentos públicos, execrando reputações e expondo publicamente pessoas tal como se fazia na era medieval.

Um conceito que pode no ajudar a pensar isso é o de dromocracia cibercultural, de Eugênio Trivinho, que define o mal-estar da sociedade contemporânea frente ao uso excessivo das tecnologias digitais e a consequente dependência delas. De repente a tecnologia dominou todas as dimensões de nossas vidas, seja na esfera pública ou privada. Do trabalho ao lazer, a internet invadiu a forma como pensamos, nos divertimos e sobretudo como nos comunicamos. No fim de tudo, eu só queria assistir o BBB tendo o prazer de descobrir o resultado final a partir do desempenho de cada participante, sua capacidade de persuasão, formação de alianças, representação de personas e habilidade de convivência. Mas as redes me roubaram esse sonho fútil e ingênuo. Por um segundo, eu que trabalho com comunicação todos os dias, abstrai que tudo está inexoravelmente interconectado e que não existe TV sem rede social e vice-versa.  Em pleno mundo VUCA, onde tudo é volátil, incerto, complexo e ambíguo, ou se preferirem no emergente mundo BANI, de realidade quebrada, ansiosa, não linear e incompreensível, resta o esforço de digerir tanta informação sem deixar-se desintegrar. Assistir o BBB em companhia de Levy e Trivinho foi uma tentativa. Sigo matutando sobre as múltiplas mensagens subliminares do programa e deixo um spoiler de um próximo texto que vai abordar as lições do BBB para a gestão de equipes. (Deborah Baesse – Gerente de Comunicação do Porto do Itaqui)

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