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Lula não ganhou um cheque em branco

Foto: Reprodução

 

O discurso da vitória mostrou que Luiz Inácio Lula da Silva conhece as reais circunstâncias nas quais foi eleito, pela terceira vez, presidente da República. “Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha”, disse. Esse reconhecimento é muito importante, pois indica que Lula aparentemente captou o recado das urnas – e não pode, sob pena de inviabilizar seu governo, ignorar esse recado uma vez investido da Presidência.
Uma parte significativa do eleitorado certamente não votou em Lula por concordar com o programa de governo do PT, até porque não foi apresentado nenhum programa de governo. Para esses eleitores, certamente na casa das dezenasde milhões, foi um voto para impedir que Jair Bolsonaro ficasse mais quatro anos no Palácio do Planalto. Foi um voto contra os devaneios autoritários, contra o conflito institucional, contra a irresponsabilidade no cuidado da população, contra a agressividade na vida política e social. Foi um voto, como Lula admitiu no domingo, “para que a democracia saísse vencedora”.

Eis um fato inegável das eleições de 2022. O PT ganhou a eleição presidencial, mas não obteve um cheque em branco da população. Apesar de disputar com o presidente da República mais disfuncional e incompetente desde a redemocratização, Lula não ganhou no primeiro turno. E, a confirmar as imensas reservas que o eleitorado tem em relação ao PT, a distância de votos entre Lula e Bolsonaro diminuiu significativamente no segundo turno. Em relação ao dia 2 de outubro, o candidato do PL conquistou no domingo mais 7,1 milhões de votos (de 51,1 milhões foi para 58,2 milhões) e o do PT, mais 3 milhões (de 57,3 milhões foi para 60,3 milhões).
O resultado estreitíssimo – nunca um candidato a presidente da República havia ganhado as eleições com tão pequena margem de vantagem – confirma a importância de ter havido um segundo turno. Por mais que tenha sido uma campanha sem projetos e sem propostas, na qual as agressões e mentiras foram as grandes protagonistas, essas quatro semanas serviram para que o resultado final das eleições manifestasse, tal como deve ocorrer na democracia, as preferências do eleitorado. Tanto no primeiro turno como no segundo, não houve o menor indício de adesão incondicional da população ao lulopetismo. E essa inequívoca mensagem do eleitor tem de ser respeitada e acolhida pelo candidato eleito não apenas no discurso da vitória, mas ao longo de todo o governo. Trata-se de uma decorrência da própria ideia de democracia representativa. Todo o poder emana do povo, diz a Constituição de 1988 em seu primeiro artigo.

No domingo à noite, Lula assumiu um compromisso importante com o País. “A partir de 1.o de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim”, afirmou. Depois de quatro anos de um governo que insistiu em dividir a sociedade e em agredir todas as instituições que não lhe foram submissas, aqui está o maior desafio do próximo presidente da República. É preciso promover a paz e a união, distensionar as relações entre os Poderes, respeitar quem pensa de forma diferente. Nada disso ocorrerá se Lula repetir o que foi feito nos 13 anos de PT no governo federal. Os tempos atuais demandam um novo agir.
Diante da rejeição do eleitorado brasileiro ao PT, Lula, para ganhar as eleições, teve de recorrer ao apoio de lideranças políticas cujo histórico é muito diferente do de seu partido. No discurso de domingo, o presidente eleito reconheceu esse fato, agradecendo, em primeiro lugar, o apoio da senadora Simone Tebet no segundo turno. Essa necessidade de ampliar a base estava explícita já na própria composição da chapa, com Geraldo Alckmin como candidato a vice. Se ter ido muito além do PT foi importante para Lula ganhar as eleições, essa abertura será ainda mais necessária para cumprir o compromisso de governar para todos os brasileiros.
“A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra”, disse Lula no domingo. Ninguém mais do que o presidente eleito tem a possibilidade de promover a paz e a união no País. Essa é agora sua responsabilidade, que não pode ficar apenas em palavras. (Editorial desta terça-feira, 01, do Estadão de S. Paulo).

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