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Maranhão dá bom exemplo no combate à pandemia e tem índice de mortalidade semelhante ao da Alemanha

SEM NEGACIONISMO - Dino: a população respeitou as medidas do governo – Karlos Geromy/Divulgação Leia mais em: https://veja.abril.com.br/brasil/estado-mais-pobre-do-pais-maranhao-da-bom-exemplo-no-combate-a-pandemia/

Reportagem da Revista Veja que já está nas bancas informa que o Maranhão está dando um bom exemplo de combate à pandemia. Segundo a matéria, assinada pelos jornalistas Edoardo Ghirotto e Juliana Castro, o estado “vem registrando a menor taxa de mortes por Covid-19, um índice semelhante ao da Alemanha e quase um terço do Amazonas. A taxa de mortalidade maranhense é quase a metade nacional”.

Veja a íntegra da matéria.

A pandemia de Covid-19 atingiu o Brasil de forma bastante desigual. As diferentes realidades fizeram com que o vírus se comportasse de forma distinta em cada região do país de dimensões continentais. Diante de tantos “Brasis”, surpreende que o estado mais pobre da federação venha registrando a menor taxa de óbitos durante a pandemia. Até quinta-feira 6, com uma população de cerca de 7 milhões de pessoas, o Maranhão apresentava índice de 105,1 mortos por 100 000 habitantes. Para se ter uma ideia, o indicador é semelhante ao da Alemanha e quase um terço da taxa do Amazonas, o pior colocado no ranking nacional segundo esse mesmo critério.

Comparado à dimensão da tragédia brasileira, o bom resultado obtido até aqui com o programa de redução de danos do Maranhão não foi obra do acaso. Liderado por Flávio Dino (PCdoB), o governo local fez uma opção por descentralizar o atendimento de saúde e dividiu o estado em dezoito sub-regiões desde antes da pandemia.

Cada uma dessas áreas conta com ao menos um hospital administrado pelo estado e que está localizado a no máximo 70 quilômetros das cidades que a integram. Assim, a capital São Luís não correu o risco de colapsar com as chegadas de pacientes do interior, como aconteceu em Manaus. Dino também transformou alguns dos hospitais de campanha em equipamentos permanentes e aplicou os recursos extras do governo federal na ampliação de centros de atendimento já existentes ou na conclusão de obras em andamento.

Além da dose de sensatez na administração dos recursos, uma causa inesperada ajudou na conta: o fato de a imensa maioria das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) maranhenses pertencer à administração estadual, e não aos municípios. O governo até tentou repassar as unidades para as prefeituras antes da pandemia, mas não obteve sucesso. “Eu não deveria ter o atendimento de urgência e emergência na minha rede”, afirma o secretário de Saúde estadual, Carlos Lula. A distorção se revelou benéfica durante a pandemia e minimizou gargalos no atendimento aos pacientes, segundo diretores de hospitais ouvidos por VEJA. Com a rede única, os médicos tinham maior controle sobre as pessoas que davam entrada nas UPAs e conseguiam acelerar as transferências para hospitais de média e alta complexidade. Críticos da gestão de Dino contestam os números e afirmam que há subnotificação das mortes no estado, o que ele nega. “Não temos evidência consistente desse tipo de problema”, rebate o governador.

Outros fatores ajudam a corroborar os números apresentados não só pelo Maranhão, mas por outros estados nordestinos que também apresentam índices de mortalidade mais baixos em relação ao restante do país. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apresentou recentemente uma nota técnica que mostra como as medidas de distanciamento social no Maranhão se mantiveram em um nível regular e satisfatório, mesmo quando a curva de mortalidade havia decrescido ao final da primeira onda da pandemia. O respeito da população às medidas sanitárias pode ser explicado por outro estudo de pesquisadores do Insper, do Ibmec e da Universidade de Toronto, ainda não revisado pelos pares. Nele, os acadêmicos mediram o impacto do negacionismo difundido pelo governo federal ao cruzar a porcentagem de votos que o presidente Jair Bolsonaro obteve no segundo turno da eleição de 2018 com as taxas de contaminação e mortes das cidades. A conclusão: um ano após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no país, os municípios que tiveram adesão mais ferrenha ao bolsonarismo computaram índices 299% maiores de casos e 415% mais mortes do que as localidades com menor apoio ao presidente.

Em todo o país, menos de 100 cidades seguem sem mortes por Covid-19 — a imensa maioria com menos de 4 000 habitantes. A maior do grupo é Bonito de Minas, pacata cidade de 11 000 pessoas encravada na divisa entre Minas Gerais e Bahia. É verdade que a propagação do vírus é atenuada pelo fato de ao menos 70% da população viver em áreas rurais, mas a lição de casa foi feita desde o início. Até hoje, não houve casos graves e nenhum paciente precisou ser internado. De acordo com o plano estratégico de combate, a cidade é dividida em cinco zonas e tem equipes de profissionais de saúde que fazem visitas aos domicílios para conscientizar as famílias. Assim que um caso é confirmado, todas as pessoas que tiveram contato com o infectado são isoladas, testadas e monitoradas. A cidade tem três Unidades Básicas de Saúde, mas todos os casos de síndromes virais vão para um único comitê habilitado a tratar a Covid-19. Sempre que há algum sinal de que a situação vai sair do controle, o comércio é fechado. Nos primeiros dias do mês, quando é comum a população rural ir à sede do município e os bancos ficam mais cheios, um “fiscal de fila” acompanha o movimento e se certifica de que o distanciamento é seguido à risca. “Estamos conseguindo envolver a sociedade”, afirma a prefeita Vânia Carneiro (Avante). A estratégia de comunicação inclui o uso intensivo das redes sociais e de uma linguagem mais atrativa para o público jovem. Servidores públicos “se infiltraram” em grupos de moradores no WhatsApp, fossem eles da igreja ou de caronas, para divulgar boletins oficiais e desfazer fake news. “A população vigia a população”, diz a secretária de Saúde, Lilian Xavier.

No interior de São Paulo, outra cidade vive um momento de dar inveja ao restante do país. Serrana concluiu a vacinação em massa de sua população no dia 11 de abril, graças a uma escolha do Instituto Butantan, que elegeu o município para fazer parte do Projeto S. Trata-se de um estudo clínico sobre o impacto da imunização na contenção da pandemia. Iniciada em 17 de fevereiro e mantida ao longo de oito semanas, a vacinação alcançou 27 150 pessoas (cobertura de 97,9% da população adulta). O Butantan deve apresentar nos próximos dias os dados preliminares sobre o estudo, mas os resultados já parecem ser promissores. Nenhuma pessoa com a imunização completa morreu e cinco vieram a óbito após tomar somente a primeira dose. O número de internações vem apresentando queda, enquanto os casos de contaminação caíram mais de 50% no período.

No Brasil, apesar do ritmo lento da vacinação, com direito a engasgos no fornecimento de doses, a segunda onda começa a dar sinais de arrefecimento. Os números de novos casos e mortes continuam preocupantes, mas ensaiam um movimento de queda nas últimas semanas, ainda que lenta. Para acelerar esse processo e evitar uma terceira onda no inverno, é necessário multiplicar o ritmo de imunização e respeitar o distanciamento social e o uso de máscaras. Na atual fase do combate ao vírus, os orçamentos públicos encontram-se no limite da exaustão. No Maranhão, a rede inflacionada com a abertura de leitos fez o gasto mensal da saúde saltar de 170 milhões para 236,9 milhões de reais. O governo conta com a desaceleração da pandemia para reorganizar os gastos em até dois meses. Se isso não acontecer, outras políticas públicas, como os investimentos em obras, terão de ser paralisadas para que se consiga arcar com as despesas. Na hipótese de retomada da escalada dos índices da Covid-19, nem o bom trabalho realizado até aqui salvará o estado, muito menos o país, cheio de maus exemplos na administração da crise, a começar pelo negacionismo do governo federal. Está mais do que na hora de aprender as lições da ciência e do conhecimento, únicas armas eficazes na guerra contra o coronavírus. (Edoardo Ghirotto, Juliana Castro – VEJA)

 

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