Fechar
Buscar no Site

Entrevista de Mandetta para ser lida com “espírito desarmado”

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, à época em que ocupada o ministério - Pedro Ladeira/Folhapress

A Folha de São Paulo, como a Globo e alguns outros veículos da chamada ‘grande imprensa’, faz hoje um jornalismo penso, parcial, totalmente de oposição ao presidente Jair Bolsonaro; cada um deles movido por suas respectivas conveniências. Por outro lado, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta está magoado pela forma como saiu do governo. Mas é preciso lucidez e um mínimo de ‘esvaziamento’ e ‘desarmamento de espírito’ para que se possa, de alguma forma, contribuir para uma melhor compreensão das coisas, pois, afinal, não temos certeza de absolutamente nada.

Dito isso, é preciso que se leia com atenção e isenção, deixando radicalismos e pré-disposições de lado, uma entrevista de Mandetta publicada, nesta segunda-feira, 18, pela Folha, um jornal, repetimos, de linha editorial claramente contrária ao presidente. Deixemos isso de lado e analisemos o que diz Mandetta.

O ex-ministro fala que a exigência do presidente Bolsonaro, de ampliar o uso de cloroquina para pacientes com quadro leve do novo coronavírus, pode elevar a pressão por vagas em centros de terapia intensiva e provocar mortes em casa por arritmia. E, mais: que resultados iniciais de estudos que recebeu ainda no governo já indicavam riscos no uso do medicamento.

“Começaram a testar pelos [quadros] graves que estão nos hospitais. Do que sei dos estudos que me informaram e não concluíram, 33% dos pacientes em hospital, monitorados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender o uso da cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada [cardíaca]”, disse Mandetta.

Principais trechos da entrevista

– O sr. foi demitido no meio da pandemia. Seu sucessor não durou um mês no cargo. Qual deve ser o impacto da queda de mais um ministro?  

– Este último mês foi perdido, sem nenhuma ação positiva por parte do ministério. Tinha pedido para toda a minha equipe que permanecesse e ajudasse o ministro [Nelson Teich]. O natural numa situação dessa é o novo ministro colocar a visão dele e pedir para a equipe executar. Mas o que assistimos foi à demissão de todo o segundo e o terceiro escalões do ministério, sem colocar ninguém no lugar. Isso é o pior dos mundos. O Ministério da Saúde está hoje uma nau sem rumo. Foram 30 dias de um ministério ausente.

– A que o sr. atribui isso? Falta de habilidade política de Teich ou interferência de Bolsonaro?

– Não dá para saber porque eu não estava no dia a dia. Vi a entrada de um número grande de militares. Eles têm conhecimento de logística, de operações. Mas não trabalham com o SUS. O sistema de saúde dos militares é de hospitais próprios, de baixa resolutividade e com plano de saúde. Não vi ninguém com experiência com o SUS na equipe nova. O próprio ministro não tinha experiência.

– Divergências com o presidente levaram à sua saída. O que mais o incomodou?

– Era muito difícil. O Ministério da Saúde começou a falar sobre coronavírus em janeiro. No começo não era uma grande pauta da sociedade, mas a gente fazia boletim todos os dias. A primeira sensação que tive era que o governo não estava tão interessado no assunto e não estava dando a devida dimensão. Só quando estávamos com vírus e casos acontecendo, na segunda quinzena de março, é que perceberam que a sociedade inteira estava muito ligada no Ministério da Saúde como principal ponto de referência. Nisso, governadores e prefeitos começaram a tomar medidas de redução de mobilidade nos grandes centros. Uma discussão feita no sistema de saúde havia quase 60 dias. Quando começam essas medidas e o presidente começa a fazer uma leitura diametralmente contrária ao discutido no SUS, ficou difícil. É difícil coordenar um sistema como ministro se o presidente dá outra mensagem. Entre os ministros, tentávamos arrumar a situação. Mas passava um dia, três dias, e novamente tínhamos uma situação contraditória [do presidente], seja de aglomeração ou ida a estabelecimentos comerciais. Ele claramente entendia que a crise econômica advinda da saúde era inaceitável, por mais que alertássemos que era uma doença muito séria e que o número de casos poderia surpreender. Nunca falei nem vou falar quais, mas tínhamos nos nossos estudos cenários de número de casos e óbitos. Nada do que está acontecendo hoje é surpresa para o governo federal.

– São dois meses desde a primeira morte confirmada e passamos de 15 mil óbitos. Como vê o cenário atual? 

– Disse uma vez que teríamos 20 semanas muito duras pela frente. Esses dois meses que passaram são 8 semanas. Para as outras 12, são mais três meses. Os primeiros casos que foram pegar a escala de transmissão aumentada e depois desorganizada ocorreram em abril, em Manaus e Fortaleza. Iríamos aumentar [a curva de disseminação] em abril, maio, junho. Em julho vamos estabilizar, quando deve ser o ápice da curva, e aí vai entrar em um platô para que, em agosto, comece a reduzir o número de casos e setembro a gente volte no ponto mais próximo de uma coisa mais amena. Estamos vivendo o primeiro terço disso. Temos o segundo e o terceiro para concluir.

– Como vê a situação nas diferentes regiões? 

– O Paraná fez um bom preparo, o Rio Grande do Sul também, mas não sei qual vai ser a intensidade da epidemia. Santa Catarina fez menos. São Paulo tem um número grande de casos, mas tem subsistemas robustos de saúde. Rio de Janeiro é um estado mais complicado, vamos ver como será a resposta. Manaus vive um colapso completo. Teve número de mortes elevadíssimo domiciliar, o que indica desassistência, e colapso no sistema funerário.

– A que atribui o colapso antes em Manaus?

– Manaus tem a Zona Franca, e lá as empresas demoraram muito para reduzir [a escala de trabalho], o vírus entrou pela vila operária. Nas cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, entrou pelas pessoas que tinham ido para a Europa, pela classe A, pelos Jardins, pela Barra da Tijuca, pelo Leblon. E o primeiro sistema que foi utilizado foi o particular, que atende muito menos gente, e agora está chegando à periferia, que é SUS e onde mora muita gente. Mas Manaus foi o contrário.

– Onde mais preocupa? 

– A situação mais complexa é o Pará, estado que provavelmente vem agora com um número muito alto de casos, dobrando muito rápido e com sistema de saúde que vai ter que se desdobrar para atender.

– É possível evitar em outros estados situações de colapso? 

– Sim. Para isso é que pedíamos isolamento e distanciamento social. Não é que o isolamento vai evitar ter o vírus. Você só vai sair disso o dia em que as pessoas pegarem a doença e tiverem sistema imunológico [contra o vírus], ou que tiver uma vacina. Mas você pode influenciar a velocidade com que isso vai acontecer. A mercadoria mais preciosa é tempo para montar um sistema minimamente organizado. No início, o sr. chegou a criticar alguns dos primeiros estados que adotaram quarentena. Fiz críticas porque teve lugares como Campo Grande que não tinha nenhum caso, e o prefeito suspendeu ônibus sem nenhum tipo de aviso. As pessoas não conseguiram chegar aos hospitais.

Em Brasília só tinha dois ou três casos, mas suspenderam aulas e não havia comitê de emergência. A sensação que deu no início foi que um governador tomou uma atitude e fez-se um efeito cascata sem ter as estruturas necessárias. Houve reação de alguns lugares com razão e outros por adesão em bloco. Quando a gente estava encontrando um ponto de equilíbrio, foi que começou essa discussão do presidente com governadores. E acabou virando uma briga entre duas partes.

– Hoje, avalia que as medidas de isolamento funcionaram?

– Sim. Em São Paulo e no Rio, as três semanas iniciais [de isolamento] foram fundamentais. Foram duas semanas com taxa de isolamento acima de 70% e outra com 60%. Aquilo diminuiu a taxa de contágio e salvou milhões de vidas. Deu tempo de ficarem prontos hospitais de campanha e de chegarem respiradores. Alguns estados já adotaram “lockdown” (confinamento estrito). Está na hora desse tipo de medida? Se falar de Manaus, Belém, Fortaleza, o “lockdown” vai se impor. Mas tem outros locais em que pode continuar trabalhando e aumentar gradativamente [a restrição]. O que tem que saber é qual o momento. Tínhamos colocado no começo que, se passar de 80% a ocupação de leitos, tem que começar a considerar [“lockdown”]. Mas tem estado trabalhando com 98% e deixando o povo andar na rua. Aí começa a morrer paciente cianótico [azulado por falta de oxigênio] porque o oxigênio não entra. – Está morrendo na UPA, em casa, e não tem vaga de CTI.

– O presidente anunciou que vai mudar o protocolo de uso da cloroquina também para casos leves da Covid-19. Há riscos?

– Toda droga carrega seu risco. No caso desse vírus, tem defensores para tudo, ivermectina, corticoide com uso precoce, heparina, cloroquina, coquetel retroviral. Nenhuma se impõe e nenhuma consegue satisfazer. Sabemos que, se não fizer absolutamente nada, se você tem 25 anos, é saudável e tiver a Covid, teria 99% de probabilidade de ter uma forma leve e sair bem. Se eu te tratar com a fita do Senhor do Bonfim e cloroquina, teria 99% de chance. Com camisa do Botafogo e cerveja preta, também. Se tiver com 68 anos, aí teria mais chance de complicar. Falaram: “então vamos testar”. Começaram a testar [a cloroquina] pelos graves que estão nos hospitais. Do que sei dos estudos que me informaram, e não concluíram, 33% dos pacientes que estavam em hospital, monitorados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender a cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada [cardíaca]. Esse número assustou, é alto. Alguns médicos falaram que “não, a cloroquina tem que usar no primeiro dia para evitar complicação”. E aí você começa a ter um problema. Se todos os velhinhos tiverem arritmia, vão lotar o CTI, porque tem muito mais casos de arritmia que complicação de Covid. E vou ter que arrumar CTI para isso, e pode ser que morra muita gente em casa com arritmia. Por isso falei que ia adotar para os [casos] graves e gravíssimos em hospital, e fora do hospital o médico assistente que decida e corra o risco.

O que o presidente quer é que o ministério faça como se fosse uma prescrição, para que em todas as unidades de saúde, mesmo sem confirmação da Covid, seja entregue a cloroquina. Tudo baseado nessa coisa de que um médico falou: ‘acho que é bom’. Mas ninguém colocou no papel, ninguém demonstrou. A [médica Nise] Yamaguchi é uma que, quando você pergunta ‘onde está escrito isso?’, fala: ‘é a minha impressão’.

– O que leva à campanha pela cloroquina? 

A ideia de dar a cloroquina, na cabeça da classe política do mundo, é que, se tiver um remédio, as pessoas voltam ao trabalho. É uma coisa para tranquilizar, para fazer voltar sem tanto peso na consciência. Se tivesse lógica de assistência, isso teria partido das sociedades de especialidades [não do presidente]. Por isso não tem gente séria que defenda um medicamento agora como panaceia. O Donald Trump [presidente dos EUA] defendeu a cloroquina, mas voltou atrás e parou. Nos EUA, isso gera processo contra o Estado. Aqui no Brasil não, se morrer, morreu. Para mim foi isso que fez com que o Teich falasse: ‘Não vou assinar isso. Vai morrer gente e ficar na minha nota’.

 

O conteúdo d'O INFORMANTE é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

mais / Notícias