Fechar
Buscar no Site

CPI tira de Bolsonaro o papel de ‘opositor’ exclusivo ao próprio governo

Foto: Reprodução

Atormentar o governo nos setores de protocolo do STF ou da PGR sempre foi um ofício das oposições no Congresso. Um trabalho não propriamente de primeira linha, claro, mas legítimo em tempos de predomínio governista no Parlamento. De Collor a FHC, o petismo, quando ainda era uma ilusão de mudança política no meio dos “300 picaretas” no Legislativo, utilizava com vigor o instrumento para compensar a falta de força na Câmara e no Senado.

Sem projeto desde 2018, quando Jair Bolsonaro convenceu 57 milhões de eleitores de que poderia ser melhor que a roubalheira petista generalizada em ministérios e estatais, a oposição acaba de conseguir sua primeira oportunidade robusta de sair da irrelevância nesse governo.

A criação da CPI da Covid-19 estabelece um palanque eletrônico permanente para que o Parlamento verbalize, prove e repise as falhas de Bolsonaro e de seu governo na pandemia que já caminha para as 400 mortes. Tudo como manda o roteiro de uma boa e velha sessão de comissão parlamentar, transmitido ao vivo na TV e nas redes, com ampla cobertura jornalística em todos os meios.

Visibilidade a quem critica e pressão sobre o Executivo são os ingredientes virtuosos em qualquer democracia. “Se o governo melhorar sua atuação a partir de agora só pelo medo da CPI já terá valido a pena”, diz um cansado aliado bolsonarista da ala moderada do Congresso.

De fato, CPIs já surgiram no Congresso e acabaram de forma constrangedora, com relatórios de página e meia, como no caso da famosa CPI do Cachoeira. Outras, no caso do Mensalão, chegaram a seu objetivo de lançar luz sobre o que a força da maioria palaciana gostaria de esconder. Mudaram pouco o curso das coisas, no caso de Lula, que foi reeleito em 2006, apesar da queda da máscara mensaleira, é verdade, mas é outra história…

Nos próximos dias, requerimentos de convocação de autoridades, quebras de sigilo de dados e toda sorte de medidas imaginadas por assessores e congressistas vão irrigar manchetes e tirar um pouco do próprio Planalto o papel de oposição, como reconhece um ministro importante de Bolsonaro: “A nossa desgraça é que este é um governo completo, desempenha até mesmo o papel da esquerda em nos atrapalhar”.

Bolsonaro chegou ao Planalto relativamente popular, com apoio do empresariado e baixa resistência no Congresso para fazer reformas e mudar o rumo do país. Desde o início, boicotou o próprio governo com uma agenda terraplanista que quase prejudicou os poucos avanços econômicos no Parlamento pré-pandemia, como a reforma da Previdência – deixada prontinha por Michel Temer. Com a chegada do vírus, então, o presidente tornou-se o pior opositor dos ministros do governo, atuando diretamente para agravar o cenário que já conhecemos.

Agora, o PSDB de João Doria, que faz parte do segundo maior bloco do Senado, com Podemos e PSL, poderá até comandar os trabalhos com o tucano Tasso Jereissati. O MDB de Renan Calheiros e Eduardo Braga está de olho na relatoria. Ameaçado por Bolsonaro, Randolfe Rodrigues também deve ter lugar na investigação. O colegiado terá 11 membros efetivos e sete suplentes,

A oposição, que vivia até agora sem proposta de país, pendurada no protocolo da PGR e do STF, terá sua vez de trabalhar. (Robson Bonin – Radar da Veja)

 

O conteúdo d'O INFORMANTE é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

mais / Notícias