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Homenageada da Flip 2022, maranhense Maria Firmina dos Reis inspira nova geração de autoras negras


Pela primeira vez em vinte anos, a Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro, vai homenagear uma autora negra: Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira. Autora do livro Úrsula, a maranhense foi escolhida pela relevância de suas obras – e pelo silenciamento que sofreu ao longo do tempo. Maria Firmina inspira uma nova geração de autoras negras brasileiras, que buscam ter cada vez mais voz.

Firmina dos Reis foi a primeira mulher a publicar um romance no Brasil. As obras dela, de caráter abolicionista, inspiram uma legião de autoras negras, como a poetisa Anastásia Gomes. Ela escolheu a romancista para ser patrona dela na Academia de Letras e Artes de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

A relevância da obra de Maria Firmina dos Reis contrasta com o silenciamento do legado da autora ao longo do tempo. Estes fatores motivaram a escolha da romancista como autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty. A vigésima edição da Flip começa nesta quarta-feira, 23, e termina no domingo, 27.

Conhecida pelo romance Úrsula, publicado em 1859, Maria Firmina se destacou por abordar a temática abolicionista de maneira singular.

Maria Firmina dos Reis também publicou contos e artigos em jornais maranhenses. Poemas renderam até interpretações musicais, como essa que você ouve ao fundo, na voz de Socorro Lira.

Entre os nomes confirmados para a Flip desse ano, estão a americana Saidiya Hartman, referência intelectual da diáspora africana; a francesa Annie Ernaux, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura em 2022; e o ator Lázaro Ramos. A filósofa Djamila Ribeiro e o escritor Geovani Martins também integram a programação principal do evento. Além de mesas redondas, a festa vai contar com atividades gratuitas espalhadas por Paraty, como palestras, bate-papos e oficinas.

Vinte anis – Nesta edição em que a Flip celebra seus 20 anos, a curadoria coletiva propôs o tema “Ver o invisível” com homenagem a Maria Firmina dos Reis (1822-1917), considerada a primeira romancista brasileira.

O nome da homenageada e a programação, que acontece de 23 a 27 de novembro de 2022, em Paraty, foram anunciados nessa terça, 13.

Pela segunda vez na história da festa literária, a curadoria foi coletiva, composta pela jornalista, tradutora e editora Fernanda Bastos, do Rio Grande do Sul, a professora e crítica literária Milena Britto, da Bahia, e o professor e pesquisador Pedro Meira Monteiro, fundador do Brazil LAB (Luso-Afro-Brazilian Studies) da Universidade de Princeton (EUA). Para Monteiro, “a curadoria da Flip nunca mais vai ser (ou nunca mais deveria ser) individual”.

“Nosso esforço foi ter na programação muitas vozes. Vivemos um momento rico da produção editorial. Há tanto uma abertura nas grandes editoras para a diversidade de vozes quanto uma riqueza de pequenas editoras, que fazem esse esforço para trazer a pluralidade aos seus catálogos”, diz Bastos.

Em 2022 a Flip retorna ao formato presencial para o público e para os autores, como nos velhos tempos. Em 2021 os debates da Flip aconteceram via transmissão digital, com ações reduzidas em Paraty.

O esforço dos curadores foi buscar uma diversidade menos óbvia, refletida nos experimentos, na linguagem, na estética
A data, este ano, está fora do habitual mês de julho em que foram realizadas todas as edições presenciais da festa. O deslocamento é uma consequência da pandemia e do ritmo do retorno do setor cultural aos eventos presenciais.

O esforço dos curadores foi buscar uma diversidade menos óbvia, refletida nos experimentos, na linguagem, na estética. E fazendo combinações de mesas para colocar autores em lugares onde não se espera os encontrar: poesia com quadrinhos, homem cis branco com ativista trans.

Bênção de Maria Firmina – Segundo Monteiro, “o nome de Maria Firmina dos Reis veio dar uma espécie de bênção. Ela é parte fundamental da literatura do século 19 que não entrou na história literária hegemônica”. E também conversa com duas grandes efemérides do ano, o bicentenário da Independência e os cem anos da Semana de Arte Moderna (e toda a discussão sobre outros modernismos). “Mais importante do que ser uma escritora negra é ser uma escritora do país, que pensava um projeto de Brasil. É perfeito que seja uma autora negra a colocar fermento nessa discussão, que não é apenas das mulheres negras”, diz Britto.
Duas mesas – Estão programadas duas mesas em homenagem a Maria Firmina: na abertura, quarta-feira, com Fernanda Miranda e Ana Flávia Magalhães, e quinta, com Lilia Schwarcz e Eduardo de Assis Duarte, que terá também como tema a Independência.

Há ainda uma novidade, a mesa com artista em destaque, na qual Nay Jinknss, fotógrafa do Pará, falará sobre a obra de Claudia Andujar — é a primeira vez que a Flip celebra a trajetória de uma artista viva. (Com CNB e Folha).

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