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25 anos após caso PC Farias, irmã revela medo e fuga da família de Suzana

Foto: Reprodução

Na manhã do dia 23 de junho de 1996, a família de Suzana Marcolino foi acordada com a triste notícia de que ela e o então namorado, Paulo César Farias, haviam sido achados mortos na casa de praia do ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello, no litoral norte de Maceió. Para a Justiça, o caso está encerrado como duplo homicídio, sem identificação de autoria.

Inicialmente, foi tratado como se Suzana tivesse matado PC e, em seguida, se suicidado. “Aquilo nos abalou demais, foram os piores dias das nossas vidas. A gente nunca acreditou naquela versão, sabia que ela não faria isso, mas acabamos sendo tratados, muitas vezes, como uma família de assassinos”, conta ao UOL a irmã de Suzana, Ana Luiza Marcolino, 61.

A versão, porém, foi contestada após uma nova perícia, que apontou que Suzana também havia sido assassinada. O perito da segunda investigação, Domingo Tochetto, afirmou que o exame residuográfico não apontou para a existência de partículas metálicas oriundas de tiro nas mãos da vítima, deixando claro que ela não tinha disparado nenhuma arma naquela madrugada.

Após o crime, a família de Suzana conviveu com insultos e com o medo. “Havia uma força maior atuando naquele caso para que não se chegasse à verdade. Tivemos de fugir de Maceió, éramos tratados como uma família assassina. Era algo absurdo, sofríamos de ameaças por telefone e nos mudamos de Maceió para João Pessoa”, diz.

Cronologia do caso

23 de junho de 1996 – PC Farias e Suzana Marcolino são achados mortos em cima da cama no quarto principal da luxuosa casa de praia do ex-tesoureiro, no bairro de Guaxuma, em Maceió
Agosto de 1996 – Laudo do legista Badan Palhares, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), afirma que o assassinato de PC foi cometido por Suzana, que em seguida cometeu suicídio
Abril de 1997 – Médico legista George Sanguinetti contesta versão oficial e apresenta um novo laudo apontando para duplo homicídio. MP reabre o caso e pede nova investigação
Maio de 1999 – Um novo laudo da Unicamp aponta erro nas medições da altura de Suzana e inviabiliza a tese de suicídio
Novembro de 1999 – Irmão de PC, o então deputado Augusto Farias é indiciado como autor intelectual do crime. PMs e mais quatro pessoas na casa são apontados como autores e coautores materiais do crime
Novembro de 2002 – STF (Supremo Tribunal Federal) arquiva acusação contra Augusto Farias após MPF (Ministério Público Federal) dizer que não havia provas contra ele. Processo é transferido para a Justiça alagoana. MP estadual denuncia os 4 PMs que estavam na casa
Abril de 2011 – Ministro Joaquim Barbosa, então no STF, nega o último recurso da defesa contestando denúncia e manda que Alagoas julgue os seguranças da casa
Maio de 2013 – Em cinco dias, júri popular reconhece tese de duplo homicídio, mas absolve policiais por clemência
Dezembro de 2018 – TJ de Alagoas nega apelação do MP para anular júri popular
Abril de 2019 – Juiz John Silas da Silva determina cumprimento da sentença de absolvição, encerrando o caso.

Em 2013, um júri popular confirmou a tese de duplo assassinato, mas inocentou por clemência os quatro policiais que faziam a segurança da casa de PC Farias. Ninguém nunca foi punido pelos crimes, nem há mais ação ou investigação sobre o caso.

Para o MP (Ministério Público) de Alagoas, por falhas na investigação, o mandante e executores dos crimes nunca serão encontrados.

Passados 25 anos, Ana Luiza conta que hoje aprendeu a conviver com a dor e a saudade da irmã [Suzana ainda deixou um irmão, Raimundo]. “Sofremos calados, era uma prisão que nós vivíamos em nós mesmos”, diz.

A pedido do UOL, Ana Marcolino fez um relato sobre a cobrança e o sofrimento da família.

“Quem assassinou Suzana Marcolino?

Passados 25 anos, o tempo ainda não foi suficiente para que esse mistério fosse desvendado. Relembrar o impacto emocional que tomou conta de mim e de minha família naquele dia 23 de junho de 1996 ainda dói muito. É uma dor que aprendi a adormecê-la para poder dar sequência à minha vida durante todos estes anos.

Foi assim que encontrei forças para enfrentar as outras dores que nos impuseram quando imputaram à minha irmã o crime de homicídio, seguido de suicídio, arrancando qualquer validação de nossa certeza de que ela sempre foi inocente nessa trama.

Num clima de intranquilidade muito grande, saímos de nossa casa, de nossa cidade, retiramos as crianças da escola, largamos nossos empregos e fomos enfrentar, em outra cidade, enormes desafios para restabelecer o mínimo de paz do caos que nos colocaram.

Voltar nesse tempo não é fácil, principalmente quando eu tinha que costurar, por dentro, o meu sofrimento para aliviar o de minha saudosa mãe, que nunca desistiu em insistir pela inocência de sua filha. Ela não suportou tanta dor e partiu ainda muito jovem, clamando por justiça.

Graças a Deus, ela não precisou assistir à absolvição, por clemência, dos envolvidos na segurança da casa da praia de Guaxuma, onde aconteceu a tragédia.

Consequentemente, não viu o sentimento de dó que continua a livrar o verdadeiro culpado (ou os verdadeiros culpados) de punição —que é uma pena não só para a família de Suzana, mas para todos os brasileiros que sempre quiseram saber o que realmente aconteceu.

Mas a sua esperança, mãe, em ser provada a inocência de sua filha, apesar de passar tantos anos, foi realizada. O mesmo júri que concedeu clemência aos réus encerrou o caso como duplo homicídio, reconhecendo a inocência de Suzana Marcolino.

E a nossa esperança continua viva para que o verdadeiro culpado ou culpados paguem pelos homicídios de Suzana Marcolino e Paulo César Farias.

Em memória de Suzana, apesar das lágrimas que teimam em cair, chegar até aqui, neste relato, me conforta e me fortalece ainda mais, porque é grandiosa a prova de amor e de fé de uma família que apesar de todas as injustiças, todos os sofrimentos, obstáculos e estigmas a que foi submetida, manteve-se —e se mantém— digna e unida até hoje”.

 

(Carlos Madeiro – Colaboração para o UOL)

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